Paradigmas da enfermagem na ESF



Paradigmas da enfermagem na ESF

Nos últimos anos a saúde pública tem sofrido grandes mudanças. 

Elas vão desde o subfinanciamento progressivo do Sistema Único de Saúde (SUS), a mudanças nos perfis dos usuários deste mesmo sistema, o que nos faz questionar os métodos utilizados até então e nos provoca a realizar mudanças nas abordagens utilizadas assim como criar novas alternativas que contemplem os usuários do serviço de saúde no cenário atual. 

Todas essas mudanças se chocam na enfermagem, profissão que atua tanto no âmbito assistencialista quanto na gestão dos serviços de saúde. 

Atuando na Atenção Básica percebi que as rotinas adotadas e repetidas por muitos profissionais no dia a dia da Estratégia de Saúde da Família (ESF), não atendiam a todas as fatias da população. 

Isso me inquietou muito por isso tive que dar um primeiro passo: passei a andar com frequência na minha área de abrangência, na feira livre e consumir produtos feitos e vendidos ali. 

Aquelas pessoas passavam e chocavam suas vidas na minha chocando também seus risos, suas falas e ideias, demandas e anseios.    
 Percebi que gráficos tem seu valor, mas, parafraseando Saint-Exupéry: O essencial é invisível aos gráficos. Tem coisa que só se sente junto. 

Sob o sol, suor na testa, olho no olho, tomando água em “copo de extrato de tomate”, afogando a sede com água do pote de barro, e sanando a angustia vivida, muitas vezes imposta, com atenção genuína e sensibilidade.

Entendi. É preciso realizar mutirões e ações in loco. É preciso combater a desinformação em saúde, falar sobre direitos humanos e executar políticas públicas engavetadas. 

É preciso falar sobre os baixíssimos índices de escolaridade em jovens e adultos, e o não-acesso à capacitação profissional. 

É preciso falar sobre a solitude da mulher negra, sobre racismo, xenofobia, e homofobia. É preciso atingir a fonte primária de tudo isso e ficou claro que ações como consultas individuais atingem vagarosamente essas questões.  

O segundo passo foi rever “o armário das velhas ações em saúde”. 

Depois que você organiza o que é realmente útil e descarta o que não serve mais, fica impressionado com o espaço que sobra. Não dá para vir com aquele discurso de não ter tempo.

O Terceiro, ir até o comercio local e instituições de ensino, com “a cara e a coragem” e um ofício na mão, se apresentar, dizer o que representa e convidar a caminhar junto.

O quarto: Parar para planejar ações objetivas, simples, e de curta duração. Elas devem atender a sete perguntas;


O que será feito?
Por que será feito?
Para quem será feito?
Qual o fluxograma?
Quantos encontros/quanto tempo?
Quando?
Onde?



Essa parte é crucial, pois planejar eventos grandes, complexos e longos abre enorme precedente para inconveniências e erros. 

Além disso, essas pessoas não são desocupadas, elas deixam seus compromissos e pessoas que amam para estar lá. 

Portanto, se você não quer ver as pessoas saírem no meio da ação, trate de considerar o tempo e a dinâmica do processo. Ressalto que não levamos os temas para a comunidade apenas porque queremos falar sobre eles. 

A comunidade é viva e é ela quem nos dá as suas demandas, na ordem de importância. Trocando em miúdos, cada “postinho” tem seus próprios desafios, portanto deve se desdobrar. Vocês estão aí para isso!

 O número de possíveis intervenções é incalculável. Em equipe, realizamos:

Entrar nessa empreitada é um desafio enorme, mas com dedicação, parcerias, sensibilidade e respeito à comunidade é possível fazer um trabalho que proporcione saúde, instrumentalize e transforme pessoas. Essas pessoas perpetuam as mudanças, que por sua vez, ecoam por gerações transformando o meio em que vivem. Alguns resultados veremos agora, outros amanhã, mas a maioria deles serão vistos pelos netos da comunidade e pelos nossos. Afinal de contas, estamos no mesmo barco. Somos apenas humanos cuidando de humanos.

Comece!

Rômulo Rangel


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